O batismo do diesel: Biodiesel pode ser o novo vilão dos motores náuticos em 2011

 

Se depender apenas da vontade do governo, a partir de janeiro próximo, os proprietários de barcos a motor movido a óleo diesel (leia-se todos os donos de lanchas de médio e grande portes…) terão uma dor de cabeça extra e um motivo a mais para se preocupar nos passeios. É que, sem que quase ninguém soubesse, no rastro da campanha governamental de incentivo ao uso do diesel de origem vegetal em substituição ao original, uma resolução da Agência Nacional do Petróleo – ANP determinou que, a partir do primeiro dia do próximo ano, também o diesel marítimo seja batizado com a mistura de 5% do chamado biodiesel, tal qual já acontece com ônibus, caminhões e demais veículos movidos a óleo diesel.
A resolução é antiga, de dezembro de 2007, mesmo ano do lançamento do diesel náutico Verana, da Petrobrás, que praticamente solucionou a crônica má qualidade do óleo diesel marítimo nacional e trouxe alívio geral para os donos de barcos. Mas só será posta em prática agora — e representa um risco e tanto para máquinas e homens. Por duas razões.

A primeira é de ordem técnica: o biodiesel, combustível produzido a partir de um balaio de matériasprimas não convencionais — da soja ao sebo animal! —, tem características diferentes do diesel derivado do petróleo no que diz respeito à durabilidade, estabilidade e, principalmente, higroscopicidade ou capacidade de absorver e reter umidade, o que, inclusive, favorece a proliferação de micro-organismos dentro do próprio combustível. E isso tudo poderá afetar diretamente os motores dos barcos. Também por outras duas razões.

Uma delas é o fato de o biodiesel, por ter maior viscosidade e diferente estabilidade térmica, gerar mais borra no interior dos motores — e borra é sempre um problema em qualquer motor. Já a outra precocupação é ainda pior: a capacidade do diesel de origem vegetal de absorver e reter bem mais umidade do que o original (cerca de 30 vezes mais, dependendo da matériaprima que deu origem a ele), o que significa que o motor trabalhará com mais “água” no combustível do que o habitual. Entre outras consequências nefastas, umidade no combustível causa entupimento de filtros, corrosão nos bicos injetores, formação de bactérias e — claro — mau funcionamento geral dos motores, que podem nem pegar ou simplesmente parar no meio do mar. No caso do diesel marítimo esta questão é ainda mais delicada, porque o próprio ambiente onde o combustível atuará (tanques e motores de barcos, bem junto à água) já é naturalmente úmido, por razões óbvias.

Como se não bastasse, ainda há outro problema igualmente sério no caso dos barcos: o biodiesel tem vida útil mais curta do que o diesel convencional e deteriora em curtíssimo tempo. Pesquisas comprovam que cerca de um mês após ser produzido, o biodiesel já está parcialmente estragado ou sem todas as suas capacidades energéticas. Ou seja, se não for consumido em apenas um mês, terá que ser jogado fora. Mas, qual posto terá tão rígido controle (afinal, combustível é algo que precisa ficar estocado) ou coragem de descartar tanques inteiros já pagos, assumindo o prejuízo?

A durabilidade do biodiesel é particularmente cruel para os barcos porque, no ambiente náutico, o consumo e a rotatividade do combustível nos postos não é tão grande quanto no caso dos veículos terrestres. É comum uma lancha passar semanas sem ir para a água e, mesmo assim, manter algum combustível no tanque — o que, pela nova lógica, seria algo proibitivo. O mesmo acontece com os postos marítimos, que, por razões logísticas, mantém estoques nos seus tanques. Com a adição do biodiesel, esta prática teria que ser revista. Mas — de novo — qual posto fará isso?

Já o segundo risco que a medida traz para os donos de barcos movidos a diesel é ainda mais preocupante do que simples danos mecânicos nos motores, porque, se eles começarem a falhar por conta do combustível, ficará em cheque a própria segurança dos ocupantes dos barcos. Afinal, uma lancha sem motor torna-se desgovernada e à deriva. E, no mar, nada é mais perigoso do que um barco sem controle.

A questão, como se vê, é bem mais delicada do que uma simples medida econômica, ainda que baseada em louváveis princípios ecológicos. O biodiesel é, sim, uma fonte de energia limpa e renovável, mas seu uso precisa ser feito com sabedoria e conhecimento de causa — e não através de uma simples portaria, como determina a resolução da ANP, que estranhamente isenta as embarcações de grande porte, como os navios, por exemplo.

Por isso mesmo, a Acobar – Associação dos Construtores de Barcos e Seus Implementos já enviou ao órgão uma carta, na qual resume as implicações da medida para os barcos de lazer, alegando que o biodiesel para uso náutico ainda não tem respaldo em nenhum outro país (por enquanto, há apenas pesquisas e uso voluntário na Alemanha e Estados Unidos) e que a adoção da mistura, mesmo na proporção de 5%, coloca em risco a integridade de máquinas e pessoas. Contudo, embora a medida caminhe a passos largos para tornar-se realidade em menos de dois meses, nem tudo está perdido. Este mês, atendendo à legislação, haverá uma audiência pública para ouvir todas as partes envolvidas. Será a última chance de tentar reverter uma novidade, que, se aplicada, nada terá de boa para os proprietários de lanchas de médio e grande portes. Justamente aqueles que, com o lançamento do diesel náutico específico da Petrobras, julgavam ter afugentado para sempre o fantasma do diesel batizado. Agora, ele promete voltar. E com respaldo oficial.

Onde mora o perigo
Umidade
O biodiesel tem maior higroscopicidade, ou capacidade de absorver e reter água, o que, no ambiente naturalmente úmido dos barcos, potencializa ainda mais o seu efeito. E, quanto mais umidade, mais micro-organismos se formam dentro do próprio combustível, favorecendo o surgimento de borras internas e o entupimento de filtros.

Oxidação
Também causada pela maior higroscopicidade, ou umidade do biodiesel, afeta particularmente os bicos injetores, além de demais partes metálicas dos motores.

Durabilidade
Pesquisas mostram que o biodiesel degrada muito mais rapidamente do que o diesel convencional. Em menos de um mês de estocagem, já praticamente se deteriora. No caso dos barcos, nos quais o consumo e a rotatividade nos postos são pequenos, o problema torna-se ainda mais sério, pois a tendência é o combustível envelhecer antes mesmo de ser consumido.

Funcionamento
Motores com altos níveis de umidade no combustível tendem a não pegar ou — pior ainda! — parar de funcionar em plena navegação, o que gera uma situação de risco tanto para a embarcação quanto para a própria tripulação. É, portanto, uma questão também de segurança. Será o fim do diesel limpo?

O que diz a nova resolução da ANP
…Considerando a Lei número 11 097, de 13 de janeiro de 2005, e com base na resolução ANP número 829, de 28 de dezembro de 2007, fica estabelecido que:

Art 3º – O óleo diesel destinado ao uso aquaviário deverá conter biodiesel no teor definido pela legislação em vigor, a partir de 1 de janeiro de 2011.

§ 1º – O biodiesel utilizado deverá atender à especificação vigente da ANP.

§ 2º – Somente os distribuidores de combustíveis líquidos e as refinarias autorizadas pela ANP poderão proceder a mistura óleo diesel/biodiesel, conforme teor previsto na legislação vigente.

§ 3º – Os combustíveis destinados a embarcações da Marinha de Guerra e aquelas que demandem especificações internacionais encontram-se fora do escopo desta resolução.

 

Por Jorge de Souza
Matéria publicada na edição 267 da revista Náutica

3 thoughts on “O batismo do diesel: Biodiesel pode ser o novo vilão dos motores náuticos em 2011

  1. ADOREI MATERIA, E ASSIM VOCE TEM QUE ENGOLIR O QUE ELES INVENTAM E DETERMINAM NEM SEQUER TEM EMBASAMENTO TECNICO PARA TAL FATO, ACHO LOUVAVEL UMA AÇÃO JUDICIAL ONDE MOSTRE CLARAMENTE OS RISCOS CAUSADOS PELO USO DO BIO DIESEL E AS CONSEQUENCIAS LEGAIS QUE ISSO VIRÁ ACARRETAR AO PODER PUBLICO E SEUS COFRES . A MIDIA NÃO DIVULGA ESTE TIPO DE INFORMAÇÃO A POPULAÇÃO VE O BIODISEL COMO A FORMULA LINDA LIMPA QUE O GOVERNO LULA TROUXE COMO AVANÇO TECNOLOGICO E DE PESQUISAS, PORQUE NÃO GASTA MAIS UM POUCO E FAZ ALGO 100% APLICAVEL SEM RESTRIÇÕES ? JÁ IMAGINOU BARCOS JOGANDO DIESEL NO MAR PQ ELE TA VENCIDO ? E DE SE PENSAR MUITO.

  2. Excelente matéria, muito útil e esclarecedora. Particularmente, tenho grande curiosidade acerca da formação de bactérias e o resultado sobre o óleo diesel da sua combinação com a água presente no mesmo. Onde seria possível encontrar literatura técnica a respeito, com abordagem química e também mecânica, em termos da performance dos motores a combustão? Desde já, agradeço.

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